• Jéssica Iancoski

17 poemas de Elisa Lucinda que você precisa conhecer

A Poesia de Elisa Lucinda vem ganhando cada vez mais espaço no cenário brasileiro.


Alguns assuntos corriqueiramente abordados por ela são a feminilidade, a negritude e o amor.


Elisa Lucinda é uma artista brasileira que trabalha com poesia, jornalismo, teatro e música.


Em 2010, Elisa Lucinda ganhou o Troféu Raça Negra na categoria Teatro.


E foi também premiada pela atuação no filme A Última Estação.


Separamos nesse post 17 poemas de Elisa Lucida que você precisa conhecer!


►► Conheça o Podcast Toma Aí um Poema: https://open.spotify.com/show/7ksI66Jr0gBezD0QKpJ4lU?si=mepm-cMzTLSk7GYQJpyncw


Elisa Lucinda (Poesia Brasileira: Fotógrafo Desconhecido/Toma aí um Poema)

O Amor de Dudu nas Águas


Estou virando uma menina tornada mulherinha com tanta coleirinha de maturidade ainda assim me sinto parida agora tenra, maçã nova nova Eva novo pecado. Tudo gira e eu renasço menina vestido curto na alma de dentro... Deixo no mar os velhos adereços a velha cristaleira, os velhos vícios as caducas mágoas. Nasce a mulher-menina de se amar com água no ventre e no olhar. Nasce a Doudou das Águas.



Poemeto de Amor ao Próximo


Me deixa em paz. Deixe o meu, o dele, o dos outros em paz! Qualé rapaz, o que é que você tem com isso? Por que lhe incomoda o tamanho da minha saia? Se eu sou índia, se sou negra ou branca, se eu como com a mão ou com a colher, se cadeirante, nordestino, dissonante, se eu gosto de homem ou de mulher, se eu não sou como você quer? Não sei por que lhe aborrece a liberdade amorosa dos seres ao seu redor. Não sei por que lhe ofende mais uma pessoa amada do que uma pessoa armada!? Por que lhe insulta mais quem de verdade ama do que quem lhe engana? Dizem que vemos o que somos, por isso é bom que se investigue: o que é que há por trás do seu espanto, do seu escândalo, do seu incômodo em ver o romance ardente como o de todo mundo, nada demais, só que entre seres iguais? Cada um sabe o que faz com seus membros, proeminências, seus orifícios, seus desejos, seus interstícios. Cada um sabe o que faz, me deixe em paz. Plante a paz. Esta guerra que não se denomina mas que mata tantos humanos, estes inteligentes animais, é um verdadeiro terror urbano e ninguém aguenta mais. “Conhece-te a ti mesmo” este continua sendo o segredo que não nos trai. Então, ouça o meu conselho deixe que o sexo alheio seja assunto de cada eu, e, pelo amor de deus, vá cuidar do seu.



Safena


Sabe o que é um coração

amar ao máximo de seu sangue?

Bater até o auge de seu baticum?

Não, você não sabe de jeito nenhum.

Agora chega.

Reforma no meu peito!

Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas

aproximem-se!

Rolos, rolas, tinta, tijolo

comecem a obra!

Por favor, mestre de Horas

Tempo, meu fiel carpinteiro

comece você primeiro passando verniz nos móveis

e vamos tudo de novo do novo começo.

Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora

apertem os cintos

Adeus ao sinto muito do meu jeito

Pitos ventres pernas

aticem as velas

que lá vou de novo na solteirice

exposta ao mar da mulatice

à honra das novas uniões

Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas

Protejam as beiras

lustrem as superfícies

aspirem os tapetes

Vai começar o banquete

de amar de novo

Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões

Façam todos suas inscrições.

Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate

O homem que hoje me amar

Encontrará outro lá dentro.

Pois que o mate.


O Poema do Semelhante


O Deus da parecença que nos costura em igualdade que nos papel-carboniza em sentimento que nos pluraliza que nos banaliza por baixo e por dentro, foi este Deus que deu destino aos meus versos, Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo e deu-lhes outra de indivíduo ainda maior, embora mais justa. Me assusta e acalma ser portadora de várias almas de um só som comum eco ser reverberante espelho, semelhante ser a boca ser a dona da palavra sem dono de tanto dono que tem. Esse Deus sabe que alguém é apenas o singular da palavra multidão Eh mundão todo mundo beija todo mundo almeja todo mundo deseja todo mundo chora alguns por dentro alguns por fora alguém sempre chega alguém sempre demora. O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas deu-me essa festa de similitude bateu-me no peito do meu amigo encostou-me a ele em atitude de verso beijo e umbigos, extirpou de mim o exclusivo: a solidão da bravura a solidão do medo a solidão da usura a solidão da coragem a solidão da bobagem a solidão da virtude a solidão da viagem a solidão do erro a solidão do sexo a solidão do zelo a solidão do nexo. O Deus soprador de carmas deu de eu ser parecida Aparecida santa puta criança deu de me fazer diferente pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente Esse Deus deu coletivo ao meu particular sem eu nem reclamar Foi Ele, o Deus da par-essência O Deus da essência par. Não fosse a inteligência da semelhança seria só o meu amor seria só a minha dor bobinha e sem bonança seria sozinha minha esperança (madrugada onde fui acordada pelo poema no Rio de Janeiro, 10 de julho de 1994)



Aviso da lua que menstrua


Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua… Imagine uma cachoeira às avessas: Cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço Às vezes parece erva, parece hera Cuidado com essa gente que gera Essa gente que se metamorfoseia Metade legível, metade sereia. Barriga cresce, explode humanidades E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar Mas é outro lugar, aí é que está: Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente Que vai cair no mesmo planeta panela. Cuidado com cada letra que manda pra ela! Tá acostumada a viver por dentro, Transforma fato em elemento A tudo refoga, ferve, frita Ainda sangra tudo no próximo mês. Cuidado moço, quando cê pensa que escapou É que chegou a sua vez! Porque sou muito sua amiga É que tô falando na “vera” Conheço cada uma, além de ser uma delas. Você que saiu da fresta dela Delicada força quando voltar a ela. Não vá sem ser convidado Ou sem os devidos cortejos.. Às vezes pela ponte de um beijo Já se alcança a “cidade secreta” A atlântida perdida. Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela. Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas Cai na condição de ser displicente Diante da própria serpente Ela é uma cobra de avental Não despreze a meditação doméstica É da poeira do cotidiano Que a mulher extrai filosofando Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso Julgando a arte do almoço: eca!… Você que não sabe onde está sua cueca? Ah, meu cão desejado Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir Então esquece de morder devagar Esquece de saber curtir, dividir. E aí quando quer agredir Chama de vaca e galinha. São duas dignas vizinhas do mundo daqui! O que você tem pra falar de vaca? O que você tem eu vou dizer e não se queixe: Vaca é sua mãe. de leite. Vaca e galinha… Ora, não ofende. enaltece, elogia: Comparando rainha com rainha Óvulo, ovo e leite Pensando que está agredindo Que tá falando palavrão imundo. Tá, não, homem. Tá citando o princípio do mundo!


Da Chegada do amor


Sempre quis um amor que falasse que soubesse o que sentisse.

Sempre quis uma amor que elaborasse Que quando dormisse ressonasse confiança no sopro do sono e trouxesse beijo no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor que coubesse no que me disse.

Sempre quis uma meninice entre menino e senhor uma cachorrice onde tanto pudesse a sem-vergonhice do macho quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo BOM DIA! morasse na eternidade de encadear os tempos: passado presente futuro coisa da mesma embocadura sabor da mesma golada.

Sempre quis um amor de goleadas cuja rede complexa do pano de fundo dos seres não assustasse.

Sempre quis um amor que não se incomodasse quando a poesia da cama me levasse.

Sempre quis uma amor que não se chateasse diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda metade de mim rasga afoita o embrulho e a outra metade é o futuro de saber o segredo que enrola o laço, é observar o desenho do invólucro e compará-lo com a calma da alma o seu conteúdo.

Contudo sempre quis um amor que me coubesse futuro e me alternasse em menina e adulto que ora eu fosse o fácil, o sério e ora um doce mistério que ora eu fosse medo-asneira e ora eu fosse brincadeira ultra-sonografia do furor, sempre quis um amor que sem tensa-corrida-de ocorresse.

Sempre quis um amor que acontecesse sem esforço sem medo da inspiração por ele acabar.

Sempre quis um amor de abafar, (não o caso) mas cuja demora de ocaso estivesse imensamente nas nossas mãos.

Sem senãos.

Sempre quis um amor com definição de quero sem o lero-lero da falsa sedução.

Eu sempre disse não à constituição dos séculos que diz que o “garantido” amor é a sua negação.

Sempre quis um amor que gozasse e que pouco antes de chegar a esse céu se anunciasse.

Sempre quis um amor que vivesse a felicidade sem reclamar dela ou disso.

Sempre quis um amor não omisso e que suas estórias me contasse.

Ah, eu sempre quis uma amor que amasse


Elisa Lucinda (Poesia Brasileira: Fotógrafo Desconhecido/Toma aí um Poema)

Café


Ela pede Ela cora Ela quer Coar café na mira de minhas elegantes meninas E correr pela ladeira ume-descida Calcinha coador pela manhã Ela cede Ela chora Ela até canta um sangrado tango e me diz: Não me zango em abrir geladeiras Quando o que faz é o que quer Ela mede Ela mora Se ela der um grito no espaço da cozinha É que ela quer ser minha e fugir Se cair em desmaio na sala quer voltar pra senzala E dançando um xote apanhar com meu chicote Mil lambidas Mil lambadas Ela em pele Ela agora Ela aqui Me engole o ferrão do corpo E sai zombando de mim


Texto para uma Separação


Olhe aqui, olhos de azeviche Vamos acertar as contas porque é no dia de hoje que cê vai embora daqui... Mas antes, por obséquio: Quer me devolver o equilíbrio? Quer me dizer por que cê sumiu? Quer me devolver o sono meu doril? Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar? Quer me deixar na minha? Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha? Olhe aqui, olhos de azeviche: Quer parar de torcer pro meu fim dentro do meu próprio estádio? Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio? Vem cá, não vai sair assim... Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho? Assim: agora fica de joelhos e comece a cuspir todos os meus beijos. Isso. Agora recolhe! Engole a farta coreografia destas línguas Varre com a língua esses anseios Não haverá mais filho pulsações e instintos animais. Hoje eu me suicido ingerindo sete caixas de anticoncepcionais. Trata-se de um despejo Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo. Pronto: última revista Leve também essa bobagem que você chamou de amor à primeira vista. Olhos de azeviche, vem cá: Apague esse gosto de pescoço da minha boca! E leve esses presentes que você me deu: essa cara de pau, essa textura de verniz. Tire também esse sentimento de penetração esse modo com que você me quis esses ensaios de idas e voltas essa esfregação esse bob wilson erotizado que a gente chamou de tesão. Pronto. Olhos de azeviche, pode partir! Estou calma. Quero ficar sozinha eu coa minha alma. Agora pode ir. Gente! Cadê minha alma que estava aqui?


Zumbi Saldo


Zumbi, meu Zumbi. Hoje meu coração eu arranco Zumbi hoje eu fui ao banco E ainda estou presa Escuto os seus sinos e ainda estou presa na senzala Bamenrindus Presa definitivamente Presa absolutamente à minha conta corrente.


Poema Ilha (Poesia Brasileira: Elisa Lucinda/Toma aí um Poema)

A Ilha


Na Solidão da existência,

nado firma na batida das águas,

corpo revolto à mercê da decisão das ondas,

vou destilando coragem no desespero das braçadas.

É noite.

Ainda bem que os versos são claros,

me ancoram, me falam, me salvam,

me beijam na boca o beijo longo da salvação,

me dovolvem o ar, a vida, a trilha.


O poema é para mim terra firme,

como é, para o náufrago, a ilha.


Penetração do Poema de Sete Faces

A Carlos Drumond de Andrade Ele entrou em mim sem cerimônias Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu Na primeira fala eu já falava como se fosse meu O poema só existe quando pode ser do outro Quando cabe na vida do outro Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada Há apenas frases e desabafos pessoais Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas Te amo porque nunca nos vimos E me impressiono com o estupendo conhecimento Que temos um do outro Carlos, me escuta Você que dizem ter morrido Me ressuscitou ontem à tarde A mim a quem chamam viva Meu coração volta a ser uma remington disposta Aprendi outra vez com você A ouvir o barulho das montanhas A perceber o silêncio dos carros Ontem decorei um poema seu Em cinco minutos Agora dorme, Carlos.

Quanto mais Vela mas Acesa


Um dia quando eu não menstruar mais vou ter saudade desse bicho sangrador mensal que inda sou que mata os homens de mistério Vou ter saudade desse lindo aparente impropério desse império de gerações absorvidas Desse desperdício de vidas que me escorre agora mês de maio. Ensaio: Nesse dia vou querer a vida com pressa menos intervalo entre uma frase e outra menos res-piração entre um fato e outro menos intervalos entre um impulso e outro menos lacunas entre a ação e sua causa e se Deus não entender, rezarei: Menos pausa, meu Deus menos pausa.


Incompreensão dos Mistérios


Saudades de minha mãe. Sua morte faz um ano e um fato Essa coisa fez eu brigar pela primeira vez com a natureza das coisas: que desperdício, que descuido que burrice de Deus! Não de ela perder a vida mas a vida de perdê-la. Olho pra ela e seu retrato. Nesse dia, Deus deu uma saidinha e o vice era fraco.


Escolha


Eu te amo como um colibri resistente incansável beija-flor que sou batedora renitente de asas viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto. Pingas na minha boca umas gotas poucas do que nem é uma vacina. Eu uma mulher, uma ave, uma menina… Assim chacinas o meu tempo de eremita: quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias as que vestiram meus pés quando caminhei as areias. Eu te amo como quem esquece tudo diante de um beijo: as inúmeras horas desbeijadas os terríveis desabraços os dolorosos desencaixes que meu corpo sofreu longe do seu. Elejo sempre o encontro Ele é o ponto do crochê. Penélope invertida nada começo de novo nada desmancho nada volto Teço um novo tecido de amor eterno a cada olhar seu de afeto não ligo para nada que doeu. Só para o que deixou de doer tenho olhos. Cega do infortúnio pesco os peixes dos nossos encaixes pesco as gozadas as confissões de amor as palavras fundas de prazer as esculturas astecas que nos fixam na história dos dias Eu te amo. De todos os nossos montes fico com as encostas De todas as nossas indagações fico com as respostas De todas as nossas destilairias fico com as alegrias De todos os nossos natais fico com as bonecas De todos os nossos cardumes as moquecas.



Elisa Lucinda (Poesia brasileira: fotógrafo desconhecido/Toma aí um Poema)

Cor-Respondência


Remeta-me os dedos em vez de cartas de amor que nunca escreves que nunca recebo. Passeiam em mim estas tardes que parecem repetir o amor bem feito que voce tinha mania de fazer comigo. Não sei amigo se era o seu jeito ou de propósito mas era bom, sempre bom e assanhava as tardes. Refaça o verso que mantinha sempre tesa a minha rima firme confirme o ardor dessas jorradas de versos que nos bolinaram os dois a dois. Pense em mim e me visite no correio de pombos onde a gente se confunde Repito: Se meta na minha vida outra vez meta Remeta.

Au Gatrin


Fumo um cigarro fino Como um palito O calor do Rio é ridículo Calor de chuva enrustida Calor do céu oprimido De inferno mar resolvido Que não sabe se queima esse cara Ou o assa ao ponto Um calor filho da puta Um calor de estufa E eu sem nem ser judia Sofro aos pouquinhos Sofro esse zé pagodinho Ardo nesse pecado que não cometi Nesse forno onde me meti Por uma apimentada dica De um nordestino Que me mostrou uma placa citada, tinhosa: "CIDADE MARAVILHOSA" Eu vim.


Amanhecimento


De tanta noite que dormi contigo no sono acordado dos amores de tudo que desembocamos em amanhecimento a aurora acabou por virar processo. Mesmo agora quando nossos poentes se acumulam quando nossos destinos se torturam no acaso ocaso das escolhas as ternas folhas roçam a dura parede. nossa sede se esconde atrás do tronco da árvore e geme muda de modo a só nós ouvirmos. Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos o pio de todas as asneiras todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha para um dia partirem em revoada. Ainda que nos anoiteça tem manhã nessa invernada Violões, canções, invenções de alvorada... Ninguém repara, nossa noite está acostumada.


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