• Jéssica Iancoski

Cora Coralina - Mulher da Vida | Poesia Brasileira

Poema de Cora Coralina Mulher da Vida.

Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi uma poetisa e contista brasileira. Considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, ela teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965, quando já tinha quase 76 anos de idade, apesar de escrever seus versos desde a adolescência. Nasceu em 1889 em Goiás e faleceu e 1985, aos 95 anos.


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Mulher da Vida (Poesia Brasileira: Cora Coralina/Toma Aí Um Poema)

Poema: Mulher da Vida

Poeta: Cora Coralina

Voz: Andreia Moema

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Mulher da Vida


Mulher

da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.

De todos os povos.

De todas as latitudes.

Ela vem do fundo imemorial das idades e

carrega a carga pesada dos mais

torpes sinônimos,

apelidos e apodos:

Mulher da zona,

Mulher da rua,

Mulher perdida,

Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.

Desprotegidas e exploradas.

Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.

Necessárias fisiologicamente.

Indestrutíveis.

Sobreviventes.

Possuídas e infamadas sempre por

aqueles que um dia as lançaram na vida.

Marcadas. Contaminadas,

Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.

Nenhum estatuto ou norma as protege.

Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,

pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal

gerada nos viveiros da miséria, da

pobreza e do abandono,

enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa

mulher corria perseguida pelos homens que

a tinham maculado. Aflita, ouvindo o

tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,

ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e

lançou o repto milenar:

Aquele que estiver sem pecado

atire a primeira pedra.

As pedras caíram

e os cobradores deram s costas.

O Justo falou então a palavra de eqüidade:

Ninguém te condenou, mulher...

nem eu te condeno.

A Justiça pesou a falta pelo peso

do sacrifício e este excedeu àquela.

Vilipendiada, esmagada.

Possuída e enxovalhada,

ela é a muralha que há milênios detém

as urgências brutais do homem para que

na sociedade possam coexistir a inocência,

a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada

esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis

e sem proteção legal,

ela atravessa a vida ultrajada

e imprescindível, pisoteada, explorada,

nem a sociedade a dispensa

nem lhe reconhece direitos

nem lhe dá proteção.

E quem já alcançou o ideal dessa mulher,

que um homem a tome pela mão,

a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.

No dia da Grande Justiça

do Grande Juiz.

Serás remida e lavada

de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça

a vestirá de branco em

novo batismo de purificação.

Limpará as máculas de sua vida

humilhada e sacrificada

para que a Família Humana

possa subsistir sempre,

estrutura sólida e indestrurível

da sociedade,

de todos os povos,

de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.

Declarou-lhe Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem

no Reino de Deus.

Evangelho de São Mateus 21, ver.31.


Poesia

dedicada, por Coralina, ao Ano Internacional da Mulher, 1975.

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Mulher da Vida (Poesia Brasileira: Cora Coralina/Toma Aí Um Poema)

Trecho Declamado no YouTube =P

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